domingo, 27 de maio de 2012

Des(a)tinos

Menina alada, sai da minha janela. Descobre o mundo e entrega sua casca na saída. Deixa a carne inteira, intensa, entregue. Te faz única enquanto aquela que escolhe, deseja. Põe o manto que te cobre de lado e permita-se. Permita-se ser aquela que viaja no tempo, aquela que percorre o vento, que de forma singular apenas é !
Sai menina alada da minha janela. Voa longe da imagem que te escora. Brinca com aquilo que des-cobre. Da doçura ao veneno; da sabedoria a loucura; da lascivia a secura, do medo, do gozo, do gosto, do cheiro.    Apenas voa !

sábado, 12 de maio de 2012

Nossa estréia no semáforo !

João já usa o banco da frente e como um absoluto navegador, me dá as coordenadas das ruas , dos buracos, das bicicletas e motos que insistem em trafegar desorientadas. Transito é algo que configura a identidade do coletivo. Viabiliza regras e nos permite dividir com o outro um espaço comum. Tão interressante analisar o quanto uma mudança de placa altera o passeio, modifica o trajeto e cria outras possibilidades de paisagem.
Quando cheguei a Cacoal há alguns anos atrás sofri para compreender as mãos das ruas, haviam poucas placas de sinalização. Cheguei a me questionar quando percebia que as pessoas faziam uso do espaço público com uma autonomia que gerava o autogoverno (rs...). Muitas vezes me deparava com as pessoas -carro que transitam pela via sem sinalização, ou melhor, sem que se possa desviar delas a tempo de não pensar no objetivo de andarem pelo meio da rua. Cacoal, sempre teve um movimento de baixa velocidade o que permitia que as pessoas conduzissem o transito a seu bel prazer. Aos poucos o impacto das faixas de pedestre foram dando lugar a uma série de mudanças de comportamento, do bom ao ruim: vi gente brigando para atravessar a rua com motoqueiros velozes fingindo não perceber a indicação; vi crianças desistindo de atravessar na faixa, pois os pais os esperam distantes delas; vi gente sendo atropelada em vias onde um único carro parou na faixa.
Com o passar dos dias foram sendo erguidos como monumentos ao progresso os semáforos...enormes, altivos, cheios de pompa e informações.
Desligados, calados, foram dando ar de dúvida a quem insistia em parar entre dois cruzamentos devido as novas faixas de pedestre.
Desligados, calados foram motivo de perturbação quando motoristas reduziam a velocidade e geravam instabilidade no fluxo, tudo isso , para decifrar todas as informações que o compõe. 
Desligados, calados com a retirada das faixas de pedestres em frente a escola e na ausencia da placa de PARE, foram motivo de aumento da velocidade, o que provocou ansiedade nas crianças que já haviam se habituado a atravessar na faixa. Detalhe: vários condutores de veiculos paravam diante da escola mesmo na ausencia da faixa. Vários, mas não todos oq ue gerava ainda mais ansiedade. Enfim... Hoje eles foram ligados. São lindos. Meu marido diria que tenho essa mania feminina de ver beleza nas coisas ... rs.  Eu e João ansiosos por ver as luzes que compõe esse novo cenário - indicativo de progresso - fomos ao centro da cidade. 
Experimentamos todos. Parecem infinitos esses três meninos. Ancoras de uma cidade em crescimento. Mas restam apontamentos de quem prevê a incerteza. O exercício do semáforo vai além de pé na embreagem, envolve o compromisso com o outro. Torna viva a idéia de respeito ao coletivo e nos faz experenciar intensamente a relação de grupo. Será que estamos preparados para tanto ?
Na dúvida tenho pensado em soluções práticas de como buscar o João na escola já que as pessoas tem aumentado a velocidade na rua da escola logo após o semáforo e, ainda frente a sinalização indicada não há como estacionar veiculos. 
João pensando me sugeriu : De duas uma mãe ou você me iça direto da sala de aula ou minha escola logo, logo, vai ter heliporto (?). João é realmente dado ao progresso e na altura dos nove anos tem soluções rápidas...rs...         


sexta-feira, 11 de maio de 2012

Gente igual, mas diferente...

Fui dessas meninas que entregue as prórpias vontades descobria as respostas dos desafios, acreditava que brincar ia além daquilo que estava escrito na caixa dos jogos. Fui dessas meninas que olhava os adultos de perto para poder enxergar aquilo que estava escrito em seus olhos.
Ler o mundo colorido nunca foi difícil, mesmo quando decifrar sentimentos novos gerava medo e incerteza. Fui dessas meninas que nas histórias com final feliz procurava questionar. Acredito que me ensinaram os pontos de interrogação antes de me mostrar os pontos finais.
Hoje, quando o João dramaticamente disse dentro do carro: Você tem que me ajudar a entender por que quando me falam que todo mundo é igual me vem uma dúvida tão grande...Eu, na tentativa de compreender o que ele queria dizer... pedi que me falasse mais do que estava sentindo.
Na altura dos seus nove anos foi me explicar que podemos ser iguais, mas ninguém sente igual ao outro as coisas que acontecem. Sentir é sentir... todo mundo tem olho, boca, descobre o mundo, mãe, mas sentir é sentir- quase gritando !  
Eu disse que somos iguais, mas diferentes. Iguais naquilo que nos constitue, mas diferentes naquilo que podemos escolher enquanto sujeitos das nossas ações. Sentir é mesmo muito intenso,único, especial e não dá para sentir igual a ninguém. Não devemos nos acreditar superiores a ponto de julgar a dor, nem a intensidade dela, a raiva ou o medo de alguém como detentores de um limiar único.
Ter sido essa menina me permite autorizar o João a acreditar que cada um é um e que podemos sentir do nosso jeito cada coisa do mundo. Escolher o que vamos ser e como vamos agir é a tonica para nossa inserção no mundo.
Fico preocupada com essa nossa tendencia de acreditar que ao dizer que somos todos iguais estamos facilitando a compreensão em relação ao outro. Diferenciar não significar distanciar ou discriminar, mas apontar que nas diferenças nos formamos e individualizamos. Pode ser angustiante para a criança ficar procurando no outro características e habilidades que não fazem eco em sua identidade. Estar atento a isso permite que possamos ter clareza do desenho que nos compõe e não simplesmente o modelo que nos norteou.

domingo, 29 de abril de 2012

Na pessoa do Pessoa...

Feche a porta, mude o disco, limpe a casa, sacuda a poeira. Deixe de ser quem era, e se transforme em quem é. Torna-te uma pessoa melhor e assegura-te de que sabes bem quem és tu próprio, antes de conheceres alguém e de esperares que ele veja quem tu és...

E lembra-te:
Tudo o que chega, chega sempre por alguma razão

(Fernando Pessoa)

Aprender é necessário...

Saborear a vida no exercício do coletivo é uma experiencia intensa de aprendizagem.
Necessariamente lidamos com nossas expectativas que nada mais são do que o espelho daquilo que desejamos. Espelho que modula aquilo que acreditamos do outro, como um espectro que criamos. Lógico, que construimos a identidade de acordo com aquilo que podemos enxergar. Nem sempre vemos o outro para além desse espelho, o que na maioria das vezes nos distancia do real.
Expectativa que denuncia nossas carencias e necessidades singulares, que denotam aquilo que guardamos secretamente. Muitos medos e fragilidades circundam esse olhar e  promovem gradualmente a formação de um outro ser que não é, nem foi a sombra daquele concreto e real que nos acompanha. Muitas vezes massacramos o sujeito, lançamos questionamentos, dirigimos ira por depositar no outro expectativas. Vale sinalizar que elas são de nossa exclusiva responsabilidade e não do outro ! Dói mas é necessário aprender !  

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Rapidinhas...intensas !

1. Se é para amar que seja inteiro, sem a capa protetora dos mecanismos que nos escondem de entender o desejo, de ouvir a intuição, de ser o próprio sujeito encarnado em si.

2. Saudade é saudável o que é patológico é permitir que a melancolia da saudade nos mantenha atados no antes, sem conexão com o hoje, destituidos, então, de repertório para a construção do agora.

3. Somos tão únicos, alados quando simplesmente respeitamos quem realmente somos...

sexta-feira, 23 de março de 2012

Crescer não dói, nem tem que doer...

 
Sempre segurei meus bebês no colo. Durante o dia, a noite, nas madrugadas. No colo. Coisa de afeto, emboladinho, grudado no corpo. Ouvi muitas vezes críticas ! Ouvi tantas vezes críticas ! Coisas como: seu bebê vai ficar mal acostumado, ihhh ! essa criança já está cheia de manha. Deixa chorar um pouco, senão fica sem vergonha ! Sempre repeti que mimo é excesso, colo é carinho -  Insisti no colo ...
As crianças não tem a malícia do mal costume, tão pouco criam manha se estiverem tranquilas e seguras.
Acredito que a segurança se faz no afeto, na proximidade. É necessário estar perto, firme , antes de ter repertório para ir sozinho. Notadamente, o apego promove a consciencia de si e do mundo. É a partir da experiencia com o adulto que a criança desenvolve as habilidades para experimentar sozinha. Habilidades não apenas sensoriais, mas também emocionais e sociais.
Vejo que passo a passo a criança acha-se...encontra-se e se percebe no controle de si.
Tal processo é único e por ser singular depende do ritmo de cada criança. Requer dos adultos presença, toque, paciencia e especialmente observação. Gradativamente a criança se apropria do contexto. Devemos estar atentos ao momento de estar perto e em que situações promover o desapego. De mansinho, de fininho, esperar que a criança olhe para trás e nos procure como quem diz : estou crescendo ! 
Dia desses o João me perguntou se já não estava na hora dele atravessar a rua sozinho. Fiquei apreensiva porque aqui em Cacoal atravessar algumas ruas requer perícia. Resolvi querer entender o significado disso para ele. O que ficou claro é que sentir-se responsável por si mesmo é um exercício que já o atrai. Fizemos alguns combinados e ele tem tido a chance de passar por essa experiencia. Devagar, de mansinho !
E, isso começou naquele colo...